ALÉM DA CÚPULA DO VULCÃO - O Patrulhamento Aéreo da Islândia


Texto: Paulo Mata
Artigo publicado no jornal Take-Off de outubro de 2012 e revista Air Forces Monthly de dezembro 2012


Nos dois últimos anos, o mundo ficou vários dias quase estático devido a vulcões islandeses, por norma, de nome quase impronunciável, mas cujas cinzas conseguiram prender em terra aviões de toda a Europa. Foi, contudo, nessa ilha, quase no Círculo Árctico, que estiveram recentemente destacados seis F-16 das Esquadras 201 - Falcões e 301 - Jaguares, da Força Aérea Portuguesa (FAP). 




Rezam as crónicas que o navegador João Vaz Côrte-Real partiu da Islândia algures na década de 1470, em expedição pelos mares do Atlântico Norte, durante a qual terá descoberto o continente americano, quase duas décadas antes de Colombo. Desde então, pouco mais interacção tem havido entre os dois países, à parte das visitas durante muitos anos de bacalhoeiros portugueses às suas frias águas e mais recentemente, do futebol.
Por que razão foram destacados os F-16 da Cruz de Cristo para este setentrional país, é o que se afigura, por isso, perguntar.
A Islândia - cuja tradução literal significa "Terra de Gelo" - é membro fundador da NATO, não tendo, contudo, forças armadas. A defesa do seu território, incluindo o respectivo espaço aéreo, foi efectuada até 2006 pelos EUA, quando cessou o acordo entre os dois países. Desde então, e face às incursões insistentes de aeronaves, principalmente russas, no espaço desprotegido, a Islândia solicitou aos aliados que vigiassem o seu espaço aéreo.


Essa protecção tem, por isso, vindo a decorrer num sistema rotativo entre países da Aliança Atlântica com recursos adequados para o fazer, tendo o Estado Português disponibilizado meios para assegurar o patrulhamento do espaço aéreo islandês durante seis semanas, no segundo semestre de 2012, no âmbito do que é a linha de política externa nacional e compromissos NATO.
A preparação da missão começou, assim, ainda em Março de 2012, com o site survey, feito de modo a poder avaliar as condições existentes no local e a melhor definir as exigências logísticas, com a missão propriamente dita a ter início quase seis meses depois, a 7 de Agosto.
A base, integrada no aeroporto internacional de Keflavic e construída pelos americanos nos tempos da Guerra Fria, quando a Islândia era de capital importância no jogo de xadrez com o Pacto de Varsóvia, dispõe de excelentes infra-estruturas, pelo que a maior parte dos meios a deslocar relacionar-se-iam apenas com o funcionamento das próprias Esquadras e a especificidade dos meios aéreos - no caso os F-16AM das Esquadras 201 e 301.
Para efectuar adequadamente o patrulhamento aéreo a cerca de 3.000 quilómetros da base-mãe (MOB - Main Operating Base) foram destacadas seis aeronaves F-16 e 70 militares, de modo a cobrir as diversas áreas necessárias à missão: Operações, Planeamento de Missões, Manutenção, Centro de Reporte e Controlo, Logística, Sistemas de Comunicação e Informáticos, Apoio Médico, Protecção de Força e Relações Públicas. Todos os meios humanos e materiais foram transportados pelos C-130 da Esquadra 501 - Bisontes, perfazendo um total de 43 toneladas transportadas.



Entre os dias 16 de Agosto, quando foi atingida oficialmente a operacionalidade total, e 14 de Setembro de 2012, o último dia útil do destacamento, a FAP assumiu oficialmente o policiamento aéreo da Islândia, com dois F-16 em estado de alerta (QRA- Quick Reaction Alert) 24 horas por dia, sete dias por semana, assegurando que nenhum alvo desconhecido se aproximaria a menos de 200 quilómetros do espaço aéreo islandês sem que fosse seguido e identificado.
Na realidade, os contornos da missão a desempenhar não eram uma novidade para as Esquadras envolvidas, já que em 2007 tinham sido já chamadas a desempenhar uma missão muito semelhante em destacamento na Lituânia, onde fizeram o policiamento aéreo das três repúblicas bálticas vizinhas, por razões idênticas às da Islândia.



Para os pilotos envolvidos, os procedimentos também mais não são do que a continuidade do treino e missões efectuadas diariamente em Monte Real, tal como não poderia deixar de ser, numa Força Aérea certificada pela NATO para a missão de patrulhamento aéreo. "Treinar como se luta, para lutar como se treina" é, de resto, a máxima usada por Falcões e Jaguares, que igualmente em Portugal asseguram o QRA, com exigências em termos de prontidão, inclusivamente, maiores do que na Islândia (enquanto em território nacional o tempo máximo de reacção é de apenas 15 minutos, o que exige que pilotos e técnicos estejam permanentemente junto às aeronaves, na Islândia esse tempo foi de duas horas, obrigando apenas a que as tripulações e mecânicos estivessem na base).
À parte desta diferença formal, pouco mais há a acrescentar à lista de dissemelhanças nas funções, centrando-se estas principalmente na meteorologia local da Islândia, bastante mais rigorosa em termos de ventos e visibilidade, devido ao facto de se operar numa ilha, bem como a pormenores relacionados com a navegação aérea, distintos nos dois países, e devido também ao facto de na Islândia a nossa FAP operar a partir de um aeroporto civil internacional.
Para garantir a prontidão das aeronaves, 38 dos 70 elementos destacados seriam mecânicos de todas as áreas relacionadas com os sistemas do F-16, apoiados num kit de manutenção previamente definido, com todos os materiais necessários para intervenções de níveis um e dois, capaz de assegurar a autonomia relativamente à MOB em apenas três contentores.


Sendo as forças portuguesas praticamente auto-suficientes em todas as áreas, algumas houve que exigiram maior cooperação entre os dois países, como foi o caso do controlo de tráfego aéreo, assegurado pelos meios e controladores aéreos da Guarda Costeira Islandesa, em estreita cooperação com os elementos portugueses do Centro de Reporte e Controlo. A equipa nacional iniciou o destacamento uma semana mais cedo, de modo a poder conhecer o sistema de controlo aéreo operado e os respectivos equipamentos, efectuar treino de procedimentos e simulação específicos.
Outra área de interdependência seriam os meios de socorro a incêndios, que não tendo sido destacados a partir de Portugal, seriam totalmente fornecidos pela "host nation". A "fire crew" local não possuía, no entanto, qualificação para lidar com emergências com o sistema de armas F-16 e as suas especificidades, nomeadamente a hidrazina, combustível de emergência altamente tóxico. Dois simulacros de emergência foram, por isso, organizados durante o destacamento, coordenados pelo Oficial de Segurança em Voo do destacamento, que através do "On-scene Commander", também nacional, com total sucesso e eficácia estabeleceu a ligação com a equipa islandesa e efectuou a gestão dos meios de suporte à emergência.


Durante o destacamento Português, o Sistema de Defesa Aérea islandês foi ainda avaliado pela NATO, através da Célula de Controlo e Comando, aproveitando a presença de meios aéreos para a realização de uma avaliação mais efectiva, tendo sido aprovado com distinção todo o sistema. 
O excelente relacionamento entre elementos das duas nacionalidades, bem como a integração dos militares nacionais com a sociedade islandesa, foram uma nota comum a todo o destacamento, tendo mesmo um dos pilotos da Esquadra 201 participado na meia-maratona de Reiquiavique, obtendo um excelente 15º lugar entre 1770 participantes. O fácil relacionamento com as populações locais em todas as missões internacionais em que as forças portuguesas têm participado é, de resto, uma característica pela qual os nossos militares são reconhecidos internacionalmente. 
Sensivelmente a meio do destacamento efectuou-se rotação do pessoal destacado, permitindo assim duplicar o número de elementos a adquirir experiência neste tipo de missão, passando por isso por Keflavic, um total de 140 militares nacionais, com o regresso final a 20 de Setembro.


A 25 de Setembro, em cerimónia realizada na Base Aérea nº5, em Monte Real, em que estiveram presentes o General CEMGFA e os Chefes de Estado-maior dos três ramos das Forças Armadas, o Ministro da Defesa Aguiar-Branco enalteceu o total sucesso da missão, bem como o contributo do profissionalismo e empenhamento dos militares das Forças Armadas nacionais, para o reconhecimento internacional das capacidades do país e elevação da auto-estima, numa época em que as razões para sorrir não são muitas.  




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